Artigo da Semana 14

Ultrasonography Assessments of Optic Nerve Sheath Diameter as a Noninvasive and Dynamic Method of Detecting Changes in Intracranial Pressure

Wang LJ; Chen LM; Chen Y; et al. JAMA Ophthalmology, 2018.

Link do artigo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29392301/

Pergunta principal do estudo

Em pacientes com suspeita de hipertensão intracraniana, a ultrassonografia do diâmetro da bainha do nervo óptico (ONSD) se correlaciona com a pressão de abertura na punção lombar (ICP) na admissão e, principalmente, a variação do ONSD consegue acompanhar de forma confiável a variação do ICP após tratamento (monitorização dinâmica)?

Pacientes estudados

Adultos com suspeita de ICP elevada e indicação de punção lombar em hospital geral. Foram avaliados 60 pacientes na admissão; 25 com ICP elevada completaram reavaliação (ONSD + punção lombar) em até 1 mês.

Desenho do estudo

Estudo observacional, com mensuração pareada do ONSD por ultrassom e do ICP pela pressão de abertura na punção lombar na admissão e no seguimento. Pacientes com ICP elevada foram estratificados em dois grupos: 200–300 mmH₂O vs >300 mmH₂O.

Critérios de inclusão

Suspeita clínica de ICP elevada com necessidade de punção lombar para confirmação, e condição clínica que permitisse realizar o exame ocular ultrassonográfico.

Critérios de exclusão

Idade <18 anos; doenças oculares (ex.: tumor/trauma ocular), história de glaucoma; uso de medicações que poderiam alterar ICP (ex.: diuréticos, inibidores da anidrase carbônica, glicocorticoides); ICP ≤200 mmH₂O; e não realização de seguimento (ONSD e/ou punção lombar) dentro de 1 mês.

Intervenção x Controle

Teste índice: ONSD por ultrassom transorbital em modo B (sonda linear), com técnica padronizada e seguindo ALARA: paciente em decúbito dorsal, probe levemente sobre pálpebra fechada com gel espesso; medida bilateral a 3 mm posterior ao globo, em dois planos (transversal e sagital), com múltiplas repetições e média; dois observadores experientes e cegos.

Referência: pressão de abertura na punção lombar, realizada por operador cego ao ultrassom (intervalo <10 min entre os exames).

Desfechos estudados

Primários: 

  • Correlação entre ONSD e ICP na admissão.

  • Correlação entre a mudança do ONSD e a mudança do ICP do baseline ao seguimento.
    Secundários:

  • Reprodutibilidade/interobservador (correlação e Bland–Altman).

Resultados

  • Na admissão (n=60), ONSD e ICP tiveram correlação forte (r≈0,80).

  • Nos pacientes com ICP elevada e seguimento (n=25), ONSD e ICP também correlacionaram na admissão (r≈0,72) e, principalmente, a redução do ONSD acompanhou a redução do ICP (correlação das mudanças r≈0,70).

  • Após tratamento, ICP e ONSD retornaram para faixas “normais”; e o ONSD no follow-up foi semelhante entre os subgrupos (200–300 vs >300 mmH₂O). 
     
  • A concordância interobservador foi alta (correlações muito elevadas; bons limites de concordância).

 

Pontos fortes

  • Foco em aplicabilidade clínica real: não só “detectar ICP elevada”, mas testar se o ONSD serve para acompanhar resposta ao tratamento.

  • Método bem padronizado (ALARA, posição, planos de medida, 3 mm posterior ao globo, cegamento do operador da punção) e com avaliação formal de reprodutibilidade.

Pontos fracos / limitações

  • Amostra longitudinal final pequena (25 no seguimento) e com perdas por ausência de follow-up.

  • Estudo unicêntrico, com risco de menor generalização e possibilidade de inferência incorreta se usado isoladamente em vez de punção lombar em alguns cenários.

  • Faixa de ICP observada teve teto em ~400 mmH₂O, então o desempenho em ICP ainda mais altas é incerto.
     
  • Ainda falta definir cutoff de variação do ONSD (ou função matemática) para estimar quantitativamente mudança de ICP; além disso, potenciais confundidores (ex.: comprimento axial/refração, outros fatores e efeito independente do tratamento) não foram totalmente explorados.

Conclusão 

O ONSD dilatado diminuiu em paralelo à redução do ICP após tratamento. Assim, a ultrassonografia do ONSD pode ser uma ferramenta útil e não invasiva para monitorização dinâmica de mudanças de ICP, embora sejam necessários estudos maiores para validação e para definir cutoffs/quantificação mais precisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *