Artigo da Semana 15
Peripheral muscular ultrasound as outcome assessment tool in critically ill patients on mechanical ventilation: An observational cohort study
Toledo DO, Freitas BJ, Dib R, Pfeilsticker FJA, Santos DM, Gomes BC, Silva-Jr JM.
Clinical Nutrition ESPEN, 2021.
DOI: 10.1016/j.clnesp.2021.03.015
Link do artigo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34024548/
Pergunta principal do estudo
A ultrassonografia (US) do quadríceps, medida como espessura da camada muscular (quadriceps muscle layer thickness, QMLT), consegue quantificar a perda muscular durante a primeira semana de UTI em pacientes em ventilação mecânica e essa perda se associa a desfechos clínicos (tempo de VM e sobrevida hospitalar)?
Pacientes estudados
Adultos internados em UTI, com expectativa de permanecer em ventilação mecânica por pelo menos 48 horas, acompanhados em um único centro.
Desenho do estudo
Corte observacional prospectiva, centro único, com mensurações seriadas de espessura do quadríceps por ultrassom à beira-leito nos dias 1, 3 e 7.
Critérios de inclusão
- Idade ≥ 18 anos
- Internação em UTI
- Expectativa de ventilação mecânica por ≥ 48 horas
Critérios de exclusão
- Doenças neuromusculares conhecidas (ex.: miopatia, neuropatia, AVC)
- Amputação de membro inferior
- Cirurgia ortopédica de membro inferior
- Necessidade de ventilação domiciliar
- Posição prona
- Transferência de outro hospital após permanência > 48 horas
- Recusa de consentimento
- Extubação < 48 horas ou internação < 48 horas (óbito/alta)
Intervenção x Controle
Intervenção (exposição): avaliação seriada por US da espessura do quadríceps (QMLT) em ambos os membros, nos dias 1, 3 e 7, usando ponto anatômico padronizado (entre EIAS e patela; junção entre 1/3 distal e 2/3 proximal da coxa).
Controle: não houve grupo controle formal; as comparações principais foram (i) evolução temporal da QMLT e (ii) estratificação por maior perda muscular (ex.: perda ≥ 1,64 cm no dia 7) versus menor perda.
Desfechos estudados
Primário: perda muscular do quadríceps na primeira semana (D1→D7) e sua associação com desfechos hospitalares.
Secundários:
- Determinar o melhor “momento” de avaliação (D1 vs D3 vs D7) para discriminar prognóstico
- Estimar um ponto de corte (cutoff) de perda muscular associado a prognóstico
- Comparar técnica com e sem compressão (para viabilidade/padronização)
Resultados:
- Amostra: 74 pacientes; idade média ~62 anos; mortalidade hospitalar 28,4%.
- Houve queda significativa da espessura do quadríceps entre D1 e D7: cerca de 15% (perna direita) e 12,7% (esquerda).
- A medida com compressão vs sem compressão foi fortemente correlacionada; os autores preferiram sem compressão por ser mais simples de padronizar.
- Um cutoff de perda de 1,64 cm no D7 teve desempenho moderado para predizer sobrevida (AUC ~0,70; sensibilidade ~81%; especificidade ~63%).
- Após ajuste (SAPS 3 e sexo), perda ≥ 1,64 cm no D7 se associou a:
- maior probabilidade de permanecer em VM (HR ~2,1)
- pior sobrevida na UTI (HR ~3,7) e no hospital (HR ~4,5)
- maior probabilidade de permanecer em VM (HR ~2,1)
Pontos fortes
- Protocolo de medida bem padronizado (ponto anatômico, posição do paciente, repetição e média das medidas).
- Avaliação seriadas (D1/D3/D7), o que captura dinâmica de perda muscular.
- Foco em uma ferramenta prática de beira-leito, potencialmente útil para monitoramento nutricional e reabilitação na UTI.
Pontos fracos
- Muitos potenciais confundidores (idade, sexo, gravidade, padrão de cuidado, balanço hídrico, comorbidades) podem influenciar tanto a espessura muscular quanto os desfechos; os autores relatam que não conseguiram ajustar adequadamente por limitação do número de eventos.
- A avaliação seriada informa perda local/segmentar, mas não mede composição corporal total; uma medida isolada pode ter utilidade limitada.
- A QMLT foi medida no eixo transversal, incluindo dois músculos com características diferentes (reto femoral e vasto intermédio) sem distingui-los — escolha pragmática, mas com potencial de imprecisão anatômica.
- Observacional e centro único: gera hipótese e não demonstra causalidade; o cutoff precisa de validação externa.
Conclusão
Em pacientes críticos sob ventilação mecânica, ocorre perda muscular mensurável por ultrassom na primeira semana de UTI. A ultrassonografia do quadríceps (QMLT) pode ajudar a identificar pacientes com maior risco de piores desfechos, e uma maior redução de espessura muscular (especialmente até o dia 7) se associou a maior tempo em ventilação mecânica e menor sobrevida.