Artigo da Semana 22
Tracheal Rapid Ultrasound Exam (T.R.U.E.) for confirming endotracheal tube placement during emergency intubation
Autores
Chou HC, Tseng WP, Wang CH, Ma MHM, Wang HP, Huang PC, et al.
Periódico
Resuscitation
Ano: 2011
PubMed:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21684668/
DOI: 10.1016/j.resuscitation.2011.05.016
Pergunta clínica
O ultrassom pode confirmar rapidamente a posição do tubo orotraqueal durante uma intubação de emergência?
E mais importante:
será que ele consegue identificar intubação esofágica com precisão semelhante à capnografia?
O artigo em 1 minuto
Estudo prospectivo observacional realizado em um departamento de emergência universitário em Taiwan.
Foram incluídos:
112 pacientes
submetidos à intubação de emergência por:
- insuficiência respiratória
- parada cardíaca
- trauma grave
A técnica estudada foi denominada:
T.R.U.E.
(Tracheal Rapid Ultrasound Exam)
A capnografia quantitativa foi utilizada como padrão-ouro para confirmação do posicionamento do tubo.
Como foi feito?
O transdutor era posicionado transversalmente logo acima da incisura esternal.
O examinador observava a traqueia em tempo real durante a intubação.
Intubação traqueal
Visualização de:
- uma única interface ar-mucosa
- artefato de reverberação posterior
Intubação esofágica
Visualização de:
- duas interfaces ar-mucosa
O famoso:
“Double Tract Sign”
(Figura 1 do artigo)
Principais resultados
Intubação esofágica não era rara
Dos 112 pacientes:
17 (15,2%)
apresentaram intubação esofágica.
Excelente acurácia diagnóstica
Acurácia global:
98,2%
(IC95% 93,7–99,5%)
Sensibilidade
98,9%
(IC95% 94,3–99,8%)
Especificidade
94,1%
(IC95% 73,0–99,0%)
Concordância com a capnografia
κ = 0,93
indicando concordância quase perfeita.
O resultado mais impressionante
O exame foi extremamente rápido.
Tempo mediano necessário para confirmação:
9 segundos
(IQR 6–14 segundos)
Isso significa que o operador conseguia confirmar a posição do tubo praticamente em tempo real.
Como o ultrassom errou?
Houve apenas:
2 erros em 112 pacientes
Um falso positivo e um falso negativo.
Os autores sugerem algumas explicações:
Falso positivo
O esôfago estava localizado imediatamente atrás da traqueia, dificultando a identificação do “double tract sign”.
Falso negativo
Artefatos anatômicos, como calcificações tireoidianas, simularam uma segunda interface aérea.
O que torna essa técnica interessante?
Ao contrário da capnografia:
O ultrassom não depende de fluxo pulmonar.
Isso é particularmente relevante durante:
- parada cardíaca
- baixo débito extremo
- RCP prolongada
situações nas quais a capnografia pode apresentar leituras difíceis de interpretar.
Além disso:
O ultrassom identifica a intubação esofágica antes da ventilação.
Ou seja:
não é necessário insuflar o estômago para descobrir que o tubo está no lugar errado.
A figura mais importante do artigo
Sem dúvida a Figura 1.
Ela mostra de forma extremamente didática:
Intubação correta
➡️ uma única interface ar-mucosa
Intubação esofágica
➡️ duas interfaces (“double tract sign”)
Depois de ver essa imagem algumas vezes, o reconhecimento torna-se bastante intuitivo.
Pontos fortes
✅ Primeiro estudo relativamente grande avaliando ultrassom traqueal em cenário real de emergência.
✅ Comparação direta com capnografia quantitativa.
✅ Incluiu pacientes em parada cardíaca.
✅ Técnica simples e extremamente rápida.
✅ Demonstração visual muito clara do “double tract sign”.
Limitações
⚠️ Estudo unicêntrico.
⚠️ Apenas 17 intubações esofágicas.
⚠️ Operadores experientes em ultrassom.
⚠️ Não avaliou intubação seletiva de brônquio principal.
⚠️ Não avaliou pacientes com trauma cervical importante ou alterações anatômicas complexas.
O que isso muda na prática?
Durante anos aprendemos que a confirmação do tubo depende de:
- ausculta
- expansão torácica
- capnografia
Este estudo mostrou que existe uma quarta ferramenta extremamente útil:
ultrassom traqueal
Em especial quando:
- a capnografia não está disponível;
- o paciente está em parada cardíaca;
- existe dúvida imediata sobre posicionamento do tubo.
Minha interpretação
Na minha visão, este trabalho foi um dos estudos que ajudou a inaugurar a era do ultrassom de vias aéreas.
O mais interessante é que ele não tenta substituir a capnografia.
A mensagem é diferente:
O ultrassom permite visualizar diretamente onde o tubo entrou.
Enquanto a capnografia avalia a consequência fisiológica da intubação, o ultrassom avalia a anatomia em tempo real.
São abordagens complementares.
3 mensagens para levar para a UTI
✅ O “double tract sign” é altamente sugestivo de intubação esofágica.
✅ O ultrassom confirmou o posicionamento do tubo em mediana de apenas 9 segundos.
✅ A técnica apresentou sensibilidade de 98,9% e especificidade de 94,1% quando comparada à capnografia.
Take-home message
Neste estudo prospectivo envolvendo 112 intubações de emergência, o ultrassom traqueal apresentou excelente desempenho para confirmação do posicionamento do tubo orotraqueal, com sensibilidade de 98,9%, especificidade de 94,1% e acurácia global de 98,2%. Além de rápido, o método permitiu identificar intubações esofágicas antes mesmo da ventilação do paciente. Embora a capnografia continue sendo o padrão de referência, o T.R.U.E. mostrou-se uma ferramenta promissora para confirmação imediata do tubo em cenários de emergência e terapia intensiva.
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