Artigo da Semana 20
Respiratory muscle ultrasonography: methodology, basic and advanced principles and clinical applications in ICU and ED patients—a narrative review
Autores
Tuinman PR, Jonkman AH, Dres M, Shi ZH, et al.
Periódico
Intensive Care Medicine
Ano: 2020
PubMed:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31938825/
DOI: 10.1007/s00134-019-05892-8
Pergunta clínica
O ultrassom do diafragma realmente tem utilidade prática na UTI ou é apenas uma ferramenta interessante para pesquisa?
Mais importante:
ele pode ajudar a diagnosticar disfunção diafragmática, orientar a ventilação mecânica e prever falha de desmame?
O artigo em 1 minuto
Esta revisão reúne os principais conceitos sobre ultrassonografia dos músculos respiratórios, com foco especial no diafragma.
Os autores revisam:
✅ Anatomia ultrassonográfica
✅ Técnicas de aquisição
✅ Espessura diafragmática
✅ Fração de espessamento (TFdi)
✅ Excursão diafragmática
✅ Aplicações em ventilação mecânica
✅ Predição de sucesso no desmame
✅ Assincronias paciente-ventilador
✅ Novas tecnologias de imagem
Como avaliar o diafragma?
O artigo descreve duas abordagens principais.
1. Zona de aposição (intercostal)
Utilizando transdutor linear de alta frequência.
Permite medir:
- Espessura
- Fração de espessamento (TFdi)
A TFdi é calculada como:
TFdi=Espessurainsp−EspessuraexpEspessuraexp×100TFdi = \frac{ Espessura_{insp} – Espessura_{exp} } { Espessura_{exp} } \times 100TFdi=EspessuraexpEspessurainsp−Espessuraexp×100
2. Janela subcostal
Utilizando transdutor convexo ou phased-array.
Permite medir:
- Excursão diafragmática
visualizada em modo M durante a respiração espontânea.
Quais são os valores importantes?
Espessura
O limite inferior da normalidade é aproximadamente:
1,5 mm
TFdi máxima
Valores inferiores a:
20%
sugerem disfunção diafragmática significativa.
Excursão
Durante respiração espontânea:
- <10–15 mm sugere fraqueza diafragmática
O que mais chamou atenção?
Talvez a principal mensagem do artigo seja que:
o ultrassom não avalia apenas anatomia; ele fornece uma estimativa funcional da bomba respiratória.
Os autores mostram que a TFdi apresenta correlação razoável com:
- atividade elétrica diafragmática
- pressão gerada pelo diafragma
- esforço inspiratório
O papel no desmame
Essa é provavelmente a aplicação mais conhecida.
Diversos estudos revisados mostraram que:
TFdi > 30–36%
durante o teste de respiração espontânea está associada a maior chance de sucesso na extubação.
Já para excursão diafragmática:
Excursão >10 mm
apresentou desempenho moderado para prever sucesso no desmame.
No entanto, os autores destacam que os resultados são inconsistentes entre os estudos.
O papel na ventilação mecânica
Uma das partes mais interessantes da revisão.
Os autores discutem o conceito de:
Ventilação protetora do diafragma
Assim como protegemos o pulmão da lesão induzida pela ventilação, talvez devamos proteger também o diafragma.
Dois extremos são prejudiciais:
Over-assistance
Excesso de suporte ventilatório:
- reduz esforço muscular
- favorece atrofia
Under-assistance
Pouco suporte:
- aumenta esforço
- favorece lesão muscular
Os autores sugerem que:
TFdi entre 15–30%
pode representar uma zona fisiológica razoável durante ventilação assistida.
Ultrassom e DPOC
Pacientes com exacerbação aguda de DPOC apresentando:
TFdi < 20%
tiveram maior risco de falha da ventilação não invasiva.
Além disso:
melhora da excursão diafragmática durante a NIV esteve associada à redução da hipercapnia.
O ABCDE do desmame
Uma contribuição muito interessante da revisão foi a proposta do:
ABCDE Ultrasound Approach
Os autores sugerem avaliar sistematicamente:
A
Aeration score e derrame pleural
B
Below the diaphragm
Ascite e hipertensão intra-abdominal
C
Cardiac assessment
Função sistólica e diastólica
D
Diaphragm
TFdi e excursão
E
Extra-diaphragmatic muscles
Músculos acessórios respiratórios
Essa abordagem reforça que falha de desmame raramente é apenas um problema do diafragma.
Pontos fortes
✅ Revisão escrita por alguns dos maiores especialistas mundiais em ultrassom diafragmático.
✅ Integra fisiologia, técnica e aplicações clínicas.
✅ Excelente descrição dos valores de referência.
✅ Propõe uma abordagem sistemática para pacientes com falha de desmame.
Limitações
⚠️ Grande parte da evidência ainda é observacional.
⚠️ Muitos estudos possuem pequenas amostras.
⚠️ Há heterogeneidade importante nos pontos de corte utilizados.
⚠️ O papel do ultrassom para prever sucesso de extubação ainda não está completamente definido.
O que isso muda na prática?
O principal ensinamento é que o diafragma deve ser encarado como um órgão monitorável à beira do leito.
Da mesma forma que monitoramos:
- pulmão
- coração
- rim
também podemos monitorar a função da bomba respiratória.
O ultrassom permite identificar:
- fraqueza diafragmática
- paralisia
- excesso de suporte ventilatório
- esforço respiratório excessivo
- causas potenciais de falha de desmame
em poucos minutos.
Minha interpretação
Na minha visão, este artigo ajudou a consolidar o ultrassom diafragmático como parte do arsenal do intensivista moderno.
O aspecto mais importante não é prever quem vai extubar.
É entender por que o paciente está falhando.
Quando integrado ao ecocardiograma e ao ultrassom pulmonar, o exame do diafragma deixa de ser uma curiosidade fisiológica e passa a fazer parte da avaliação global do paciente crítico.
3 mensagens para levar para a UTI
✅ TFdi <20% sugere disfunção diafragmática significativa.
✅ TFdi entre 15–30% pode representar uma faixa adequada durante ventilação assistida.
✅ O ultrassom do diafragma deve ser interpretado em conjunto com pulmão, coração e contexto clínico.
Take-home message
A ultrassonografia dos músculos respiratórios é uma ferramenta segura, reprodutível e cada vez mais relevante na terapia intensiva. Além de permitir o diagnóstico de disfunção diafragmática, ela pode auxiliar na monitorização da ventilação mecânica, na avaliação de pacientes com insuficiência respiratória aguda e na investigação das causas de falha de desmame. O maior valor clínico parece surgir quando integrada ao ecocardiograma e ao ultrassom pulmonar, compondo uma avaliação fisiológica abrangente do paciente crítico.
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