Artigo da Semana 21

Should the ultrasound probe replace your stethoscope? A SICS-I sub-study comparing lung ultrasound and pulmonary auscultation in the critically ill

Autores

Cox EGM, Koster G, Baron A, et al.

Periódico

Critical Care

Ano: 2020

PubMed: 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31931844/

DOI: 10.1186/s13054-019-2719-8

Pergunta clínica

O estetoscópio ainda é uma ferramenta confiável para detectar edema pulmonar em
pacientes críticos?
Ou o ultrassom pulmonar já deveria ocupar esse papel na avaliação beira-leito?

O artigo em 1 minuto

Subanálise prospectiva do estudo SICS-I realizada em uma UTI universitária holandesa.
Foram avaliados:
926 pacientes críticos consecutivos
Todos os pacientes realizaram:
● Ausculta pulmonar
● Ultrassom pulmonar
nas primeiras 24 horas da admissão na UTI.

Como definiram edema pulmonar?

Pelo ultrassom:
≥3 linhas B
em pelo menos
2 regiões bilaterais
segundo o protocolo BLUE

Principais resultados

Edema pulmonar era muito frequente

O ultrassom identificou edema pulmonar em:

307 pacientes (33%)

Metade desses pacientes tinha ausculta normal

Dos 307 pacientes com edema pulmonar ao ultrassom:

156 (51%)

não apresentavam crepitações nem roncos.
Ou seja: metade dos pacientes congestionados teria passado despercebida se a
avaliação dependesse apenas do estetoscópio

Concordância muito baixa

A concordância entre ausculta e ultrassom foi:
κ = 0,25
considerada pobre.

Performance global da ausculta

Medida                      Valor
Sensibilidade               52%
Especificidade              74%
VPP                              49%
VPN                              76%
Acurácia                       67%

Crepitações também decepcionaram

Dos pacientes com crepitações:
apenas 66%
realmente apresentavam edema pulmonar ao ultrassom.

Roncos foram ainda menos úteis

Dos pacientes com roncos:
apenas 46%
tinham edema pulmonar ao ultrassom.

O resultado mais interessante
Quando os autores analisaram pacientes sem ventilação mecânica, a ausculta melhorou discretamente.
Mesmo assim:
a concordância permaneceu baixa
(κ = 0,31)
Isso sugere que o problema não é apenas o ruído do ventilador.
O próprio mecanismo fisiopatológico da congestão pulmonar provavelmente explica parte
da limitação da ausculta.

Por que isso acontece?
As linhas B representam:
    ● aumento da água extravascular pulmonar
    ● congestão intersticial precoce
    ● edema antes do preenchimento alveolar importante
Já as crepitações costumam surgir mais tardiamente.
Em outras palavras:
     O ultrassom enxerga a congestão antes que ela seja audível.

Pontos fortes
✅ Grande amostra prospectiva (926 pacientes).
✅ Um dos maiores estudos comparando diretamente estetoscópio e ultrassom pulmonar.
✅ Avaliação realizada logo após admissão na UTI.
✅ Aplicabilidade extremamente prática.

Limitações
⚠ Estudo unicêntrico.
⚠ Ultrassom utilizado como referência, não tomografia.
⚠ Pesquisadores não estavam cegos para os dados clínicos.
⚠ Avaliou apenas edema pulmonar, não outras patologias pulmonares.

O que isso muda na prática?
Durante décadas aprendemos que:
     crepitações = congestão pulmonar.
Este estudo mostra que essa associação é muito mais fraca do que imaginamos.
Na prática:
     ● ausência de crepitações não exclui congestão;
     ● presença de roncos não significa edema pulmonar;
     ● linhas B fornecem informação fisiológica muito mais sensível.
Para intensivistas que já utilizam ultrassom pulmonar, o trabalho reforça que a avaliação da congestão não deve depender exclusivamente da ausculta.

Minha interpretação
Na minha visão, o mérito deste estudo não é “enterrar o estetoscópio”.
O mérito é demonstrar que estamos tentando detectar um fenômeno fisiológico complexo
com uma ferramenta limitada.
O estetoscópio detecta som.
O ultrassom detecta água.
E quando o objetivo é identificar congestão pulmonar, detectar água parece ser uma
estratégia muito melhor.

3 mensagens para levar para a UTI
✅ Metade dos pacientes com edema pulmonar ao ultrassom apresentava ausculta normal.
✅ A concordância entre ausculta e ultrassom foi pobre (κ = 0,25).
✅ Para avaliação da congestão pulmonar, o ultrassom pulmonar parece significativamente
mais sensível do que o estetoscópio.

Take-home message

Em uma coorte prospectiva de 926 pacientes críticos, o ultrassom pulmonar identificou edema pulmonar em um terço dos pacientes, mas metade deles apresentava ausculta completamente normal. A baixa concordância observada entre os métodos sugere que a ausculta isolada possui limitações importantes para detectar congestão pulmonar na UTI. Embora o estetoscópio continue relevante na avaliação clínica global, o ultrassom pulmonar fornece uma avaliação muito mais sensível da água extravascular pulmonar e deve ser considerado uma ferramenta complementar — e muitas vezes superior — na investigação da congestão pulmonar.

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