Artigo da Semana 19

Comprehensive non-invasive haemodynamic assessment in acute decompensated heart failure-related cardiogenic shock: a step towards echodynamics

Autores

Frea S, Gravinese C, Boretto P, et al.

Periódico

European Heart Journal: Acute Cardiovascular Care

Ano: 2024

PubMed: 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39012797/

DOI: 10.1093/ehjacc/zuae087

Pergunta clínica
 

Será que conseguimos substituir grande parte das informações obtidas pelo Swan-Ganz utilizando apenas ecocardiografia?

Mais do que isso:

será que conseguimos fenotipar o choque cardiogênico de forma não invasiva usando apenas ultrassom?

O estudo em 1 minuto

Estudo prospectivo realizado em um centro terciário italiano incluindo 101 pacientes com choque cardiogênico relacionado à insuficiência cardíaca descompensada (ADHF-CS).

Todos os pacientes realizaram:

  • Ecocardiograma completo
  • Cateterismo direito (Swan-Ganz)

com intervalo máximo de 30 minutos entre os exames.

O objetivo foi comparar a capacidade do ecocardiograma de estimar:

✅ Índice cardíaco (CI)

✅ Pressão atrial direita (RAP)

✅ Pressão capilar pulmonar (PCWP)

✅ Pressão pulmonar

✅ Cardiac Power Output (CPO)

✅ Pulmonary Artery Pulsatility Index (PAPi)

e verificar se o eco conseguiria reproduzir os mesmos fenótipos hemodinâmicos obtidos pelo Swan-Ganz.

Como foi feito?

Os autores construíram um verdadeiro painel hemodinâmico ecocardiográfico.

A partir de medidas convencionais foram calculados:

Débito cardíaco

  • LVOT diameter
  • LVOT VTI

Pressões de enchimento

  • E/e’
  • Gradiente da insuficiência tricúspide
  • Veia cava inferior
  • Fluxo venoso hepático

Pressão pulmonar

  • Velocidade da IT
  • Velocidade da insuficiência pulmonar

CPO

CPO=CO×PAM451CPO = \frac{CO \times PAM}{451}CPO=451CO×PAM​

PAPi

PAPi=PAPs−PAPdRAPPAPi = \frac{PAPs – PAPd}{RAP}PAPi=RAPPAPs−PAPd​

Tudo estimado exclusivamente pelo ecocardiograma.

Principais resultados

Índice cardíaco

Excelente correlação com o Swan-Ganz:

  • r = 0.88

Sensibilidade para detectar CI ≤ 2,2:

  • 97%

Especificidade:

  • 73%

Pressão atrial direita (RAP)

Também apresentou desempenho impressionante:

  • r = 0.86

Sensibilidade:

  • 90%

Especificidade:

  • 83%

Pressão pulmonar sistólica

Melhor correlação de todo o estudo:

  • r = 0.91

Sensibilidade:

  • 87%

Especificidade:

  • 63%

Cardiac Power Output (CPO)

Correlação muito forte:

  • r = 0.82

Sensibilidade:

  • 76%

Especificidade:

  • 85%

PAPi ecocardiográfico

Provavelmente o resultado mais interessante do estudo.

Correlação:

  • r = 0.67

Para detectar PAPi < 1.85:

  • Sensibilidade = 89%
  • Especificidade = 92%
  • AUC = 0.95

Ou seja:

o eco identificou muito bem pacientes com disfunção significativa de ventrículo direito.

O grande fracasso: pressão capilar pulmonar

Nem tudo funcionou.

A estimativa de wedge pressure foi decepcionante.

Correlação:

  • r = 0.34

E a fórmula clássica baseada no E/e’ apresentou desempenho particularmente ruim.

Os próprios autores sugerem que, em pacientes críticos:

O E/e’ parece refletir mais alterações de relaxamento miocárdico do que a pressão de enchimento instantânea.

Fenotipando o choque cardiogênico

Talvez o aspecto mais inovador do trabalho.

Os pacientes foram classificados em:

LV-dominant shock

Predomínio de falência ventricular esquerda.

RV-dominant shock

Predomínio de falência ventricular direita.

Biventricular shock

Comprometimento de ambos os ventrículos.

No overt cardiogenic shock

Sem perfil hemodinâmico típico.

Quando comparado ao Swan-Ganz:

  • 71% dos pacientes foram corretamente classificados pelo eco
  • Kappa = 0.55

Resultado bastante razoável para uma ferramenta completamente não invasiva.

E quanto ao prognóstico?

Entre todos os parâmetros avaliados:

PAPi ecocardiográfico < 2.1

foi o único marcador associado à mortalidade em 60 dias:

HR 2.97

IC95% 1.23–7.17

p = 0.02

Curiosamente:

  • CI
  • RAP
  • PCWP
  • PAPs

não apresentaram associação significativa com mortalidade.

Pontos fortes

✅ Estudo prospectivo.

✅ Eco e Swan realizados com menos de 30 minutos de diferença.

✅ Primeiro estudo validando um painel hemodinâmico ecocardiográfico completo no choque cardiogênico.

✅ Primeira validação clínica robusta do PAPi ecocardiográfico.

✅ Aplicação direta na prática da UTI e da cardiologia intensiva.

Limitações

⚠️ Estudo unicêntrico.

⚠️ Apenas 101 pacientes.

⚠️ Muitos pacientes já recebiam inotrópicos e vasodilatadores.

⚠️ Não avaliou resposta dinâmica ao tratamento.

⚠️ Exclusão de pacientes intubados reduz a generalização para os casos mais graves.

O que isso muda na prática?

Durante anos o Swan-Ganz foi considerado indispensável para caracterizar o choque cardiogênico.

Este estudo sugere que talvez isso não seja mais verdade para muitos pacientes.

Com um ecocardiograma completo foi possível estimar adequadamente:

  • débito cardíaco
  • pressão atrial direita
  • pressão pulmonar
  • PAPi
  • CPO

e ainda classificar diferentes fenótipos de choque cardiogênico.

A principal exceção continua sendo a pressão capilar pulmonar, que permaneceu difícil de estimar de forma confiável.

Minha interpretação

Na minha visão, este artigo representa uma das melhores demonstrações do conceito de “echodynamics”.

A mensagem não é que o ecocardiograma substitui completamente o Swan-Ganz.

A mensagem é que podemos obter uma enorme quantidade de informação hemodinâmica relevante sem qualquer dispositivo invasivo.

Mais interessante ainda é que o estudo desloca o foco da simples avaliação da fração de ejeção para algo muito mais útil:

a caracterização fisiológica do choque.

Isso se aproxima bastante do conceito moderno de medicina personalizada em hemodinâmica.

3 mensagens para levar para a UTI

✅ O ecocardiograma estimou com excelente precisão o índice cardíaco, RAP, pressão pulmonar e CPO.

✅ O PAPi ecocardiográfico apresentou excelente capacidade para identificar disfunção importante de ventrículo direito.

✅ O E/e’ isoladamente não foi confiável para estimar pressão capilar pulmonar em pacientes com choque cardiogênico.

Take-home message

Em pacientes com choque cardiogênico relacionado à insuficiência cardíaca descompensada, uma avaliação ecocardiográfica abrangente permitiu estimar com boa precisão múltiplos parâmetros hemodinâmicos tradicionalmente obtidos por cateterismo direito. O estudo valida o conceito de “echodynamics”, demonstrando que o ecocardiograma pode fornecer não apenas informações estruturais, mas também um verdadeiro perfil hemodinâmico capaz de identificar fenótipos distintos de choque cardiogênico. A principal limitação continua sendo a estimativa da pressão capilar pulmonar, que apresentou desempenho significativamente inferior aos demais parâmetros.

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