Artigo da Semana 10

Extracardiac Signs of Fluid Overload in the Critically Ill Cardiac Patient: A Focused Evaluation Using Bedside Ultrasound

Beaubien-Souligny W, Bouchard J, Desjardins G, Lamarche Y, Liszkowski M, Robillard P, Denault AY.
Canadian Journal of Cardiology, 2017; 33: 88–100.

Link do artigo: DOI: 10.1016/j.cjca.2016.08.012

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Pergunta principal do estudo

Como o ultrassom point-of-care (POCUS) pode ser usado para identificar sinais extracardíacos de sobrecarga volêmica e congestão venosa em pacientes cardíacos críticos, e como essa avaliação pode complementar o exame clínico para individualizar o manejo hemodinâmico?

Pacientes estudados

Pacientes adultos críticos com disfunção cardíaca e risco de congestão venosa, incluindo aqueles submetidos a cirurgia cardíaca, em pós-operatório imediato ou sob suporte intensivo no Montreal Heart Institute e instituições associadas à Université de Montréal (Canadá).

Desenho do estudo

Revisão narrativa e integrativa, baseada em evidências experimentais e observacionais, descrevendo o papel do ultrassom à beira-leito na avaliação da sobrecarga hídrica extracardíaca.
O artigo detalha achados ultrassonográficos em múltiplos órgãos (vasos centrais, fígado, rins, pulmões e sistema nervoso central), relacionando-os à congestão venosa sistêmica e às consequências fisiopatológicas da hipervolemia.

Critérios de inclusão

  • Pacientes críticos com suspeita de sobrecarga volêmica ou congestão venosa.
  • Cenário de disfunção cardíaca (aguda ou crônica).
  • Contexto de monitorização hemodinâmica à beira-leito.

Critérios de exclusão

O artigo não define exclusões específicas, mas salienta que doenças hepáticas, pulmonares ou neurológicas primárias podem confundir a interpretação dos achados ultrassonográficos e devem ser consideradas antes de atribuir alterações ao volume extracardíaco.

Intervenção x Controle

  • Intervenção (POCUS):
    Avaliação multimodal de sinais extracardíacos de congestão:

    • IVC e veia jugular interna: diâmetro e colapsabilidade → estimativa de CVP.

    • Veia hepática: razão S/D < 1 indica congestão direita.

    • Veia porta: fluxo pulsátil (PF > 50%) indica hipertensão portal venosa.

    • Veia renal interlobar: fluxo bifásico ou monofásico reflete hipertensão venosa renal.

    • Pulmões: presença difusa de B-lines correlaciona-se com aumento de água extravascular (EVLW).

    • Nervo óptico e Doppler transcraniano: possíveis marcadores de congestão cerebral.

    Controle:
    Não aplicável (revisão conceitual, sem grupo comparador).

Desfechos estudados

  • Identificação precoce de sinais de congestão sistêmica e orgânica.
  • Correlação de padrões Doppler (hepático, portal, renal) com pressão venosa central (CVP) e desfechos clínicos.
  • Proposição de um protocolo integrado de ultrassom multissistêmico para guiar o manejo de fluidos e prevenir complicações de sobrecarga.

Resultados

  • Congestão venosa é um determinante independente de lesão orgânica em pacientes críticos.

  • Ultrassom multissistêmico permite detectar precocemente sobrecarga antes de alterações clínicas evidentes.

  • Alterações descritas:

    • IVC > 20 mm e colapsabilidade < 40% → CVP > 10 mmHg.

    • Hepática S/D < 1 → congestão direita.

    • Portal PF > 50% → hipertensão portal venosa.

    • Fluxo renal monofásico → piores desfechos cardíacos e renais.

    • Pulmonares: B-lines correlacionam-se fortemente com EVLW.

    • Neurológicos: diâmetro da bainha do nervo óptico > 5.2–5.9 mm → ICP elevada.

  • O conjunto desses achados define o conceito de “avaliação de congestão extracardíaca”, cuja presença múltipla sugere risco aumentado de disfunção orgânica e mortalidade.
  • O artigo propõe que a descongestão guiada por POCUS pode prevenir complicações iatrogênicas associadas ao balanço hídrico positivo.

Pontos fortes

  • Propõe uma abordagem integrativa e fisiológica do ultrassom na congestão venosa.
  • Reúne evidências de múltiplos sistemas (cardíaco, hepático, renal, pulmonar e neurológico).
  • Introduz o conceito moderno de avaliação de congestão multissistêmica extracardíaca, base conceitual para o desenvolvimento do escore VExUS.
  • Serve de referência teórica e visual (com figuras detalhadas) para treinamento clínico e pesquisa aplicada em monitorização hemodinâmica guiada por ultrassom.

Conclusão 

O artigo de Beaubien-Souligny et al. propõe um marco conceitual na avaliação hemodinâmica à beira do leito, ao demonstrar que o POCUS permite identificar de forma precoce e integrada os sinais extracardíacos de sobrecarga volêmica e congestão venosa. A abordagem multissistêmica — envolvendo vasos centrais, fígado, rins, pulmões e sistema nervoso central — oferece uma visão fisiopatológica mais completa do impacto da hipertensão venosa sobre órgãos-alvo. Essa estratégia complementa o exame clínico tradicional e fornece subsídios objetivos para individualizar o manejo de fluidos e orientar estratégias de descongestão. O trabalho consolidou as bases para a criação de escores de congestão ultrassonográfica, como o VExUS, e reforça o papel do POCUS como ferramenta essencial na monitorização e no cuidado personalizado de pacientes cardíacos críticos.

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