Artigo da Semana 17

Estimating Left Ventricular Filling Pressure by Echocardiography

Andersen OS et al. JACC 2017.

Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28408024/ 

WORKSHOP CONGESTÃO VENOSA

 
 
Podemos realmente estimar a pressão de enchimento do VE pelo ecocardiograma?
 
A pressão de enchimento do ventrículo esquerdo (VE) é uma das informações mais importantes na avaliação de pacientes com insuficiência cardíaca e congestão pulmonar.
Mas quão confiável é o ecocardiograma para estimar essa pressão quando comparado ao cateterismo cardíaco?
 
O estudo em 1 minuto
 
Estudo multicêntrico envolvendo 450 pacientes submetidos a cateterismo cardíaco e ecocardiograma praticamente simultâneos.
 
O objetivo foi validar o algoritmo proposto pelas diretrizes ASE/EACVI para estimativa não invasiva das pressões de enchimento do VE.
 
O padrão-ouro utilizado foi:
  • Pressão capilar pulmonar (PCWP)
  • Pressão diastólica ventricular esquerda pré-contração atrial (LV pre-A)
considerando pressão elevada quando >12 mmHg.
 
Como o algoritmo funciona?
 
Quando o padrão de enchimento mitral não é claramente normal ou claramente restritivo, três parâmetros são avaliados:
 
✅ E/e’
✅ Volume atrial esquerdo indexado (LAVI)
✅ Velocidade máxima da insuficiência tricúspide (TR velocity)
 
A presença de pelo menos 2 critérios positivos sugere aumento da pressão de enchimento do VE.
 
Principais resultados
 
Avaliação clínica isolada
 
  • Sensibilidade: 74%
  • Especificidade: 69%
  • Acurácia global: 72%
 
Ecocardiografia
 
  • Sensibilidade: 87%
  • Especificidade: 88%
  • Acurácia global: 87%
 
Ecocardiografia + avaliação clínica
 
A combinação dos dois métodos apresentou desempenho ainda melhor:
  • AUC aumentou para 0.91
  • Reclassificação líquida significativa dos pacientes (NRI 1.5)
O que mais chamou atenção?
 
O famoso E/e’ sozinho não foi o melhor parâmetro.
A correlação entre E/e’ médio e pressão invasiva foi apenas moderada:
  • r = 0.65
Da mesma forma:
  • LAVI isoladamente apresentou correlação fraca (r = 0.23)
 
A principal mensagem do estudo é que nenhum parâmetro deve ser interpretado isoladamente.
 
O poder diagnóstico surge justamente da combinação dos achados ecocardiográficos.
 
Pontos fortes
 
✅ Grande amostra multicêntrica (450 pacientes)
✅ Comparação direta com cateterismo cardíaco
✅ Inclusão de pacientes com FE reduzida e preservada
✅ Validação prática das diretrizes ASE/EACVI
 
Limitações
 
⚠️ Não incluiu pacientes críticos em choque ou ventilação mecânica de forma específica.
⚠️ A maioria dos exames foi realizada em ambiente controlado de laboratório de ecocardiografia.
⚠️ O estudo avaliou pressão de enchimento em repouso; não aborda alterações dinâmicas durante intervenções terapêuticas.
 
O que isso muda na prática?
 
Talvez a principal lição seja abandonar a busca por um único marcador mágico.
 
Muitos profissionais ainda perguntam:
 
“Qual o E/e’ que define congestão?”
 
Este estudo mostra que essa pergunta está errada.
 
A avaliação correta exige integração de múltiplos sinais:
 
  • padrão de enchimento mitral (E/A)
  • E/e’
  • volume atrial esquerdo
  • velocidade da insuficiência tricúspide
  • contexto clínico
Quando interpretados em conjunto, esses parâmetros alcançam excelente desempenho diagnóstico.
 
Minha interpretação
 
Na minha visão, o maior mérito deste trabalho foi demonstrar que a ecocardiografia não substitui o raciocínio clínico — ela o complementa.
 
O estudo reforça um conceito extremamente importante para quem trabalha com ecocardiografia crítica:
 
Nenhum parâmetro isolado estima adequadamente a pressão de enchimento do VE. O valor real do ecocardiograma está na integração fisiológica dos achados.
 
Take-home message
 
O algoritmo ASE/EACVI baseado em E/A, E/e’, volume atrial esquerdo e velocidade da insuficiência tricúspide identificou aumento das pressões de enchimento do VE com acurácia de aproximadamente 87%, superando claramente a avaliação clínica isolada. A principal mensagem prática é que a estimativa da pressão de enchimento não deve ser baseada em um único parâmetro, mas na interpretação integrada dos achados ecocardiográficos dentro do contexto clínico do paciente.

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